November 2nd, 2009 (07:21 pm)
Música: Hava Nagila
“Sou apátrida por três razões:
como nativo da Boêmia na Áustria,
como austríaco na Alemanha
e como judeu no mundo inteiro.
Sou um intruso em toda parte!”
– Gustav Mahler
O grande compositor austríaco Gustav Mahler tinha consciência de que o fato de ser judeu o atrapalhava e muito em sua carreira enquanto maestro e, sobretudo, compositor. Ser um judeu na Europa no final do século XIX e início do XX era ser cerceado socialmente em vários lugares. E veja bem, estamos falando de um período histórico anterior a Auschwitz ou Nuremberg.
O antissemitismo europeu sempre foi algo velado. Os judeus estavam lá em suas comunidades fechadas e praticamente não faziam parte das atividades nacionais que pertenciam geográfica e juridicamente. E por serem tão velados em suas atividades que acabaram por alimentar monstros em alcovas nacionalistas.
Hannah Arendt em sua busca pelas possíveis causas basilares do fenômeno dos movimentos totalitários na Europa chega à conclusão de que a figura semita no território europeu contribuiu em muito para a erupção nacionalista destes grupos, principalmente por conta da distinção cultural existente nestas comunidades.
Bem verdade que falar abertamente disso é tocar em feridas que as comunidades judaicas européias não querem nem de longe lembrar. Em verdade, é polêmica garantida. Afinal, como falar da parcela de culpa histórica e social das comunidades judaicas naquilo que veio a se voltar contra as mesmas e as transformaram nas grandes vítimas da segunda grande guerra? Deveras complicado, devo dizer. No entanto, é necessário enfiarmos o dedo nas feridas da história humana. Quanto mais sangue e sujeira de lá sair, melhor.
Vamos citar o conhecido caso Dreyfus. A grande motivação para escrever este post foi o caso Dreyfus na verdade. Assisti tem alguns dias o filme “Bastardos Inglórios” onde o diretor faz uma inversão de valores acerca da figura do Judeu no bojo da segunda guerra. O filme todo não é de meu agrado, principalmente por não gostar particularmente da estética cinematográfica de Tarantino. No entanto, em uma de suas primeiras cenas um nome de uma família camponesa judia guardada ( e massacrada posteriormente) em um sótão me vem em mente. Seu nome era Dreyfus.
O caso Dreyfus é justamente o fato histórico emblemático que marca essa idéia antissemita em solo europeu. A erupção de algo que existia de forma latente e que ninguém se dava conta. A idéia de que o modus vivendi judaico não era apreciado em nenhum lugar da Europa, até mesmo na tão igualitária, fraternal e liberal França!
Em 1894 o soldado de origem Judaica Alfred Dreyfus é acusado de ser um espião a serviço dos alemães. Os documentos, no entanto, eram falsos. Mesmo assim Dreyfus foi condenado por alta traição e extraditado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Sinceramente, eu ficaria por lá.
A opinião francesa se dividiu abertamente entre os que eram a favor e contra Dreyfus. O ódio antissemita era evidente. O desenrolar do processo durou 16 anos. Nesse ínterim, Dreyfus ficou marcado como baluarte do ódio a figura semita no país. Afinal, mesmo depois de absolvido e dado como inocente, Dreyfus era hostilizado pelos demais franceses. E estamos falando de décadas antes da ascensão do nazismo e das Leis de Nuremberg (1935).
O estado de guerra civil ideológica era claro. Arrisco-me dizer que nos salões da Belle Époque dançava-se sob um chão de vidro onde ao se olhar para baixo poderia se observar toda a hipocrisia e sujeira social onde uma sociedade inteira se alicerçava. Precisou a figura de Émile Zola se sobressair como intelectual e ativista ( o primeiro da espécie, demos graças!) para opinarem sobre o assunto de forma coerente. E mesmo assim, incomodados como estavam, o antissemitismo prevaleceu.
No entanto, as Leis de Nuremberg , anos mais tarde, vieram corroborar com uma posição antissemita naturalizada pela sociedade européia. Inclusive para as comunidades judaicas, o que é desconcertante para as mesmas admitirem. Principalmente após a desgraça de Auschwitz.
As leis de Nuremberg não abalaram a comunidade Judaica. Os judeus ricos que moravam então nas cidades resolveram esperar. E o Nazismo cresceu. Tem alguns meses que assisti a uma releitura de “Um Homem Bom” para o cinema. Lembro-me de debater sobre este filme logo após sair do cinema e chegar a conclusão com minha interlocutora de que é de um hipocrisia sem medida simplesmente esperar as coisas acontecerem. E foi justamente o que aconteceu. Enquanto pobres, sem dinheiro ou emprego eram atacados e enviados para campos de concentração não havia problema. Agora quando essas ações chegam até as classes mais abastadas...ai a opinião pública faz frente. A comunidade judaica com maiores recursos não se manifestou. Viu o nazismo ascender de camarote e pagou para ver. Uma lástima.
O antissemitismo não pode ser negado. Principalmente na história européia onde ele existe desde a idade média e passou a ser um preconceito caseiro que acabou resultando nas mazelas assistidas na segunda grande guerra. No entanto, a noção de etnia surgiu com os próprios judeus que tentavam a todo custo se distanciar das comunidades que faziam parte, tendo até mesmo outra língua, outros costumes e regras próprias de comportamento. A combinação destas duas vertentes com uma europa pós primeira guerra sedenta por achar um culpado resultou em uma das maiores vergonhas para a humanidade e que até hoje dá frutos podres.