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Erick Carvalho [userpic]

MUDAMOS!!!

October 13th, 2010 (07:46 pm)

MUDAMOS!

AGORA ESTAMOS EM:

WWW.KELTOS.WORDPRESS.COM

Erick Carvalho [userpic]

A Irlanda Sangrenta

February 4th, 2010 (08:30 pm)

"Was it for this the wild geese spread
The grey wing upon every tide;
For this that all that blood was shed,
For this Edward Fitzgerald died,
And Robert Emmet and Wolfe Tone,
All that delirium of the brave?
Romantic Ireland's dead and gone,
It's with O'Leary in the grave."

- September 1913, W.B.Yeats.


Antecedentes do conhecido conflito armado.

 

O século XX foi marcado pelo conflito armado entre os defensores de uma Irlanda unida e os que lutavam pela manutenção do domínio britânico na Irlanda do Norte. Como entender este cruel conflito imortalizado em músicas, poemas e a na memória de milhares de pessoas que tiveram sonhos e vidas dilaceradas pela atuação sangrenta de soldados e milicianos? 

 

Bem, se procurarmos entender como a tensão aumentou ao longo dos séculos, nós poderemos compreender, por exemplo, o que motivou o levante de páscoa de 1916, ou o Domingo Sangrento imortalizado pelo grupo de rock U2. Basta olharmos para a memória dos irlandeses e o que eles lembram a ponto de lutar e se lamentar sobre.

 

Um dos levantes mais lembrados pelos irlandeses como basilar para a memória do conflito Anglo-irlandês foi o levante de 1798. Nesse momento, a Irlanda vinha de uma longa tradição de domínio por seus landlords que via de regra possuíam certo alinhamento com a coroa britânica e protestantes. Os grupos identificados como católicos eram oprimidos desde Cromwell e não apenas não tinham direitos, como não tinham voz alguma.

 

Não obstante, a década de 1790 inspirou acaloradas idéias. Aliado aos ideais da Revolução francesa, os irlandeses promoveram a formação de grupos de debates, entre eles a Sociedade dos irlandeses unidos. Esta sociedade de debates cresceu e em 1798 levantou-se contra o domínio britânico. Por falta de comunicação entre os revoltosos e aliados franceses, no entanto, o levante não deu certo. Mas o bastião da luta nacionalista tomou força ali e a figura de Wolfe Tone ( um dos revoltosos)  seria lembrada para sempre como mártir.

 

O Século XIX se afigura então de forma tensa. Os ingleses após o levante de 1798 elevam a Irlanda a reino unido, dando cidadania britânica para seus habitantes e espaço no parlamento para seus landlords protestantes. É a partir deste momento que acontece a primeira fragmentação no seio da sociedade irlandesa, onde grandes proprietários protestantes aliados a monarquia britânica vão apoiar a idéia unionista em contrapartida do resto da população, em geral católica e oprimida que vai tentar de alguma forma um autonomia do estado irlandês frente a Inglaterra .

 

O projeto de Autonomia ( Home Rule) ganha força no século XIX embasado pelo sentimento irlandês de diferença em relação a Inglaterra. Um de seus principais defensores é Daniel O’Connell. O problema é que os colonos do Norte, grandes proprietários de terra e influentes na política irlandesa estavam cada vez mais alinhados com o partido Tory britânico e ganhando cada vez mais concessões que os permitiam ascender socialmente no seio da comunidade britânica. Essa primeira metade do século XIX apenas agravou diferenças que mais tarde seriam marcadas por um conflito armado. Ao norte temos unionistas favoráveis a Inglaterra por receberem cada vez mais concessões políticas e subsídios financeiros e de outro uma Irlanda pobre, sem qualquer direito civil e condenada aos mandos e desmandos do império britânico. É nesse contexto que as idéias nacionalistas de Daniel O’Connel que não apenas criticava a lei de União, mas também defendia uma autonomia irlandesa, acabaram por incitar todo um sentimento patriótico irlandês de defesa de uma independência.

 

As idéias de Daniel O’Connell criaram dois grupos distintos entre os que defendiam a autonomia. Os que acreditavam e um viés político e constitucional e outro que só conseguiam ver na revolução a saída para tamanha opressão. O primeiro grupo era defendido pela figura de Charles Stuart Parnell que, embora latifundiário protestante e membro do Parlamento, empreendeu esforços enérgicos por uma autonomia irlandesa digladiando na segunda metade do século XIX com o primeiro ministro britânico Gladstone que por fim chegou a reconhecer a coesa argumentação da causa.

 

O braço revolucionário desta luta por autonomia era Irmandade Republicana Irlandesa, popularmente conhecida como Fenianos, em alusão ao grupo de heróis mitológicos celtas do passado que defendiam bravamente as terras irlandesas contra os invasores. Fundada em 1858 teve grande adesão em 1870 e ajudou e muito a promover grupos de cunho nacionalista por toda a Irlanda. Era apoiada por sindicatos e mais tarde pela Liga Gaélica, que fundada em 1893 estimulava o nacionalismo irlandês por meio do desenvolvimento da língua irlandesa própria, esportes gaélicos (Hurling e futebol gaélico) entre outras formas de manifestações culturais e sociais ligadas à identidade irlandesa.

 

Nesse ínterim, o projeto de lei de autonomia era jogado para debaixo do tapete no parlamento Britânico, sob protestos de grupos unionistas que se formavam. O Conselho Unionista da Irlanda do Norte representado pelo Conde de Erne, o Lord Londonderry e Sir Edward Carson eram virulentos na sua crítica a autonomia, pois perder seu alinhamento com a Inglaterra arruinaria interesses seculares de uma classe hegemônica de donos de terra e proprietários nortistas.

 

O enfraquecimento da figura política de Parnell (pego em um escândalo de cunho pessoal) e o avanço das ligas gaélicas e dos grupos revolucionários no sul, além da fundação do partido Sinn Fein em 1905 por Arthur Griffith, provocaram verdadeiro pavor nestes grandes proprietários nortistas que tentavam a todo custo manter sua hegemonia política e de domínio sobre os demais irlandeses, em geral subalternos e sem qualquer direito civil. Vale ressaltar que entendemos hegemonia aqui como Gramsci a entende e que a atuação destas ligas nacionalistas gaélicas atuariam como vertentes contra-hegemonicas por excelência atuando em resposta aos principais mandos e desmandos da postura hegemônica dos grandes proprietários que tentavam a todo custo manter seus status quo junto o parlamento britânico.

 

Em 1912 já era possível delimitar distintamente os grupos de atuação unionistas e os que defendiam a autonomia e até mesmo a independência da Irlanda. No norte sob a égide protestante unionista, vários grupos se formaram, pegando em armas e prontos para defender aquilo que acreditavam ser o correto. Por todo o resto da Irlanda o contrário também acontecia. Homens formavam brigadas e contrabandeavam armas (os católicos eram proibidos de possuí-las) para a formação de grupos de resistência e luta pela autonomia. Interessante notarmos que a circulação de idéias e folhetins da época não mostram qualquer referência de um grupo ao outro, o que é irônico. Em grande parte estes grupos tinham a idéia de defesa de seus ideais contra quem fosse e se armavam até os dentes tanto ideologicamente como na postura bélica.

 

No entanto, algumas manifestações já entravam em ebulição. James Connolly atuava desde 1910 com grupos sindicais irlandeses e estrutura o partido socialista irlandês por essa época. Em 1913 ele funda junto com James Larkin o exército de cidadãos irlandeses que faria um breve e infrutífero levante nesse mesmo ano. O Exército de cidadãos irlandeses era uma força pequena de cerca de 250 homens, em geral estivadores, operários e trabalhadores de base irlandeses que mais tarde se uniriam ao exército da Irmandade Republicana Irlandesa, embrião do que foi a formação do Exército Republicano irlandês (IRA) em 1917.

 

William Butler Yeats (um dos maiores poetas e expoentes culturais gaélicos da época), por exemplo, em seu poema “Setembro de 1913”  fala do levante de Connolly e conclama em seus versos citando Wolfe Tone e Robert Emmet uma comoção com a causa irlandesa. O nacionalismo chegava em um ponto exacerbado e não era mais possível voltar atrás. Como diriam as palavras de Yeats nesse mesmo verso “A romântica Irlanda está morta e distante com O’leary em seu túmulo”. Agora era a hora de agir.

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Erick Carvalho [userpic]

A Múltipla Guerra Civil Espanhola

January 25th, 2010 (12:11 am)

"Bandera roja
tú eres nuestra guía
Bandera roja
tú forjas la unión
tú eres la esperanza
de que un nuevo día
saludes triunfante
la revolución." (...)

- Hino republicano espanhol.



- A problemática dos múltiplos poderes republicanos.

A guerra civil espanhola foi um conflito que marcou uma geração inteira e que no final destruiu sonhos de idealistas jovens ou velhos ao redor do mundo. O espírito dos brigadistas, suas lutas contra o fascismo e sua sede ideológica de buscar um mundo melhor a começar pela Espanha foi sufocada pelas autoritárias forças franquistas.

No entanto, muitos são os defensores de que o grande inimigo daqueles que defendiam a república espanhola era nada mais nada menos que eles próprios.

Afinal, o período da história espanhola marcado pela guerra civil é o que podemos chamar de um borbulhante caldeirão quente. Dentro das lutas e no bojo da guerra civil muitos sabiam contra quem estavam lutando, mas raramente pelo que. Em verdade, arrisco em dizer que a coesão totalitária do “generalíssimo” Franco com seus aliados italianos e nazistas foi sem sombra de dúvida um dos grandes trunfos na luta contra os sonhos republicanos.
Afinal, é trabalho hercúleo organizar grupos tão distintos como os socialistas da UGT, os anarquistas da CNT, comunistas stalinistas e os marginalizados comunistas do POUM. Pra ser sincero, se o problema fosse apenas este, o de organizar sob a égide da segunda república grupos tão antagônicos já seria algo complexo. No entanto, inúmeras outras querelas e a virulenta ameaça franquista, apoiada por italianos e nazistas, criava uma tensão ainda maior e que se mostrava presente não apenas na fragmentação dos grupos, mas no combate direto entre eles.

Mas afinal, será que as bombas de Franco e o cerco a Madri eram os únicos catalisadores destas inúmeras querelas dos múltiplos poderes que combatiam por uma postura hegemônica ideológica na Espanha? Lendo as principais obras sobre o conflito escritas nos últimos anos e em especial o livro de Francisco Salvadó, acreditamos que não. Até mesmo porque, como já entoavam os combatentes do Ebro, “ nada pueden bombas donde sobra corazón”. O problema na verdade era a inflexibilidade das ações motivadas ideologicamente por estes grupos apaixonados frente à ameaça fascista.

Se buscarmos alguns antecedentes destes conflitos, por exemplo, nós veremos que esta fragmentação nos remete a um momento anterior ao período ditatorial de Primo de Rivera uma década antes ou até a formação destes diferentes grupos vinte anos antes durante o período da primeira guerra. O desenrolar das formações partidárias na Espanha e os alinhamentos ideológicos das mesmas junto aos sindicatos denuncia uma “guerra civil moral” frente não apenas a estrutura de governo da época, mas entre os próprios grupos.

Com a formação da Segunda República anos mais tarde e uma maior autonomia destes partidos, a tensão era inevitável. Com o passar dos anos e a eclosão do conflito aberto em 36, a capacidade de articulação entre estes múltiplos poderes era precária. O líder anarquista Durruti, por exemplo, foi morto com um tiro pelas costas em um episódio emblemático desta falta de coesão na luta armada republicana junto aos discursos conciliadores de Azanã ou da famosa deputada “La pasionaria” que alertavam sempre para a ameaça franquista. Em verdade, a falta de articulação destes grupos não apenas criou inúmeras guerras civis dentro da mesma, mas favoreceu e muito o avanço nacionalista, que sendo de caráter fascista tinha a prerrogativa ideológica da anulação de uma pluralidade ideológica (até mesmo do indivíduo pensante) em pró de uma débil coesão totalitária de ideais. Neste sentido, era nessa falta de articulação dos múltiplos poderes republicanos que se formava a chamada “quinta coluna” que dando um tiro no próprio pé, minava grande parte dos esforços de resistência republicana.

Se isto tudo não bastasse, as divergências no tocante a aplicabilidade ideológica em diferentes áreas de domínio republicano, tornou a precária articulação destes grupos em um verdadeiro diálogo de surdos. Para coroar as querelas republicanas internas, a proeminente ação dos stalinistas nas ações do governo ( oriunda da União Soviética que a legitimava) fez explodir o barril de pólvora que no final das contas já havia se implodido anos atrás sem se dar conta. A clandestinidade de grupos como o POUM e o sentimento anti-comunista do exército republicano colocou em xeque o comando de Negrín e sua capacidade de resistir ao conflito contra os nacionalistas, principalmente após estas medidas e por tantas outras como ao fato de Negrín cercar-se de comunistas em sua administração.

É interessante notarmos que neste momento com a crescente influência dos stalinistas no governo ( estes eram minoria se comparados aos outros grupos) e o enfraquecimento do campo de atuação dos demais grupos, um crescente sentimento derrotista se apossou dos republicanos. Afinal, com o desgaste de um conflito que durava anos, junto ao crescente avanço franquista ( que ao vencer a resistente brigada do Ebro, tomara um dos bastiões da resistência, a região da Catalunha), a miséria e a falta de plano de atuação deixaram os republicanos esperando seu golpe de misericórdia.

E este golpe foi dado quando o então republicano general Casado deu a última demonstração de fragmentação ao tomar o poder de Negrín frente a república. Não existia mais o que resistir ou pelo que resistir. Nenhuma força tinha o vermelho socialista, o negro anarquista ou o verde que se queria verde dos gitanos. As bombas de franco trataram de enterrar na vertente única do totalitarismo os sonhos de uma geração inteira que impossibilitados ideologicamente de se unirem terminaram por se anularem em seus mal fadados sonhos hegemônicos.



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Erick Carvalho [userpic]

Fados - Carlos Saura.

November 25th, 2009 (01:18 pm)
Música: Meu Fado Meu - Mariza & Miguel Poveda

“Volta atrás vida vivida
Para eu tornar a ver
Aquela vida perdida
Que nunca soube viver
(...)
Meu Deus, como o tempo passa
Dizemos de quando em quando
Afinal, o tempo fica
A gente é que vai passando”


- Volta atrás vida vivida, Argentina Santos.


Aproveitando o espírito musical exacerbado que tomou meu peito, tempo e contratempo nestes dias, hoje resolvi deixar aqui minhas impressões sobre um filme que assisti tem algum tempo (na verdade ontem) sobre a tradicional e lamuriosa música lusitana, o fado.

Fados é a nova película de Carlos Saura, diretor que gosto muito e que tenho certa predileção pela estética musical de seus últimos filmes. A crítica atual menosprezou este último filme justamente por isso. Ter uma estética muito próxima dos últimos filmes de Saura. Ora, se por um lado eles elogiam por outro eles ficam enfadados. Claro, não espere uma amostra brilhante cinematográfica de musical como Buena Vista Social Club, por exemplo, mas também não espere ficar enfadado com a estética de Saura (ok eu dispenso a participação de Caetano Veloso no filme, mas Chico Buarque está lá para salvar-nos!). No entanto, mesmo assim, fadado fico eu, pois no final das contas, adorei a sensibilidade do filme e todo o cancioneiro tradicional lusitano retratado ali.

O Fado é uma música de sentimento. Assim como aqueles que buscam em Fernando Pessoa uma lógica que não a sentimental não a encontram, no fado também não. O Fado é a canção da maturidade. Feita por aquele que ficou para contar a história. Sua própria história. E como todos deveriam saber toda história pessoal não tem apenas momentos felizes. Tem muitos momentos tristes e de dor. Cantar a estes momentos e saber transformá-los em expressão, em poesia e motivação para concertar as coisas no futuro ou no presente de quem os canta é tarefa fadista. É tarefa para poucos. Somente aqueles que têm a sensibilidade aflorada e que sabem se comover com a lua ou o passar dos gatos lusitanos sabe a emoção de se cantar um fado.

Por estes motivos eu indico o filme Fados de Carlos Saura. Mas indico apenas para aqueles que sabem sentir. Apenas aqueles que se comovem com sentimentos, com a vida e com a música que toca os corações. Para aqueles pragmáticos, duros e que olham para a maturidade da alma e do coração como algo a se desbravar apenas, eu aconselho a passar longe do filme de Saura. Para todos os outros que vivem do sentir, que se entreguem ao Fado!

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Vídeos do Filme.




Erick Carvalho [userpic]

O Muro de Berlim é aqui.

November 13th, 2009 (10:24 am)
Música: Pink Floyd - Outside the wall.

"All alone, or in twos
The ones who really love you
Walk up and down outside the wall
Some hand in hand
Some gathering together in bands
The bleeding hearts and the artists
Make their stand
And when they've given you their all
Some stagger and fall after all it's not easy
banging your heart against some mad buggers
Wall"

- Pink Floyd, Outside the wall.



Quando eu era criança, algo comum de se ver eram as imagens da queda do muro de Berlim que bombardeavam a programação da televisão. O fato era recente e existia todo um clima de euforia (ou pavor) com a desfragmentação do leste europeu.

Em verdade, a propaganda ocidental era massiva e massificante. E, além disso, vivíamos anos em que a cada fim de semana um país novo se formava naquela região. Lembro-me bem de ter de atualizar meu Atlas escolar anualmente, inclusive.

Mas enfim, mais uma vez estamos sendo bombardeados com imagens do muro de Berlim caindo. Comemorações no mundo inteiro. Derrubar este muro tem todo um significado social e apropriações diversas. De um lado o triunfo estadunidense sobre o que eles acreditam ser a liberdade. De outro o saudosismo de quem viveu aquela época e lá morava. Afinal, existem coisas que o filme “Adeus, Lênin” não mostra. Antes de derrubarmos o muro se tinha quase nada. Após o muro se tem tudo....porém não se tem dinheiro suficiente para obter esse tudo. Será que foi tão revolucionário assim derrubar o muro de Berlim? Mas enfim, esta é outra discussão.

Hoje gostaria de pensar em outros muros. Outros muros que existem espalhados pelo mundo e que precisamos derrubá-los.

Vamos ponderar um pouco. Derrubamos o muro de Berlim em 1989. Um muro que existia sim, mas que era visível e palpável. E os outros muros que perduram ainda hoje e são invisíveis fisicamente, mas plenamente reais?

O muro de desigualdades entre os países ricos e pobres no mundo todo, ou quem sabe o muro que existe entre os ricos latifundiários e os miseráveis sertanejos, camponeses e demais desprovidos de terra, renda e perspectiva de trabalho, não apenas em nosso vasto Brasil, mas em toda a América latina? E as veias abertas daquele que não têm sequer um prato de comida e que sangram em rios de vermelha desigualdade? Não se derruba nunca o abismo existente entre classe dominante e classe dominada, campesino, operários, trabalhadores e toda sorte de proletários?

E os nossos muros de moralidade duvidosa? Esses mesmos muros que excluem pobres, negros, favelados e insubordinados? Como mudar e como destruir, pois é preciso destruir, estes muros? Não estando em Berlim e não sendo feito de concreto, mas sim de bases histórico-sociais bem mais sólidas, como fazer para derrubá-los?

Pensemos que eles estão lá. E nós aqui. É assim como gostam de pensar, não? Como diria uma antiga canção de rock progressivo é possível fazê-los sentir, mas não pensar. Afinal, como ser otimista em dias como esses? Você consegue ser otimista?

Ser otimista ou pessimista é uma escolha vital para a derrubada destes muros. Eu particularmente sou partidário da idéia de Gramsci de pessimismo da inteligência, otimismo da vontade”. Temos de entender racionalmente que as coisas estão ruins, para só assim por meio da vontade otimista de mudança derrubarmos estes muros com fortes golpes.

E que nunca se esqueça que do outro lado do muro não existe algo execrável. Existe algo humano. Existe algo igual a você. Manter estes muros sejam eles visíveis e invisíveis é cercear o direito da humanidade de ser humana. Por isso devemos empunhar os martelos da vontade e derrubarmos tijolo por tijolo estes muros.

Do contrário terminaremos totalmente cercados.


Erick Carvalho [userpic]

Noite Anarquista! Teatro Mágico! Entrada só para raros e loucos

November 10th, 2009 (10:42 am)
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Música: Secos & Molhados - O doce e o Amargo.


Quando tinha 17 anos eu li pela primeira vez um livro de Hermann Hesse. Sidarta era este livro e despertou-me cá dentro em meu peito um espírito libertador que modelou a forma como tratei as pessoas e a vida até os dias de hoje, devo dizer. Wilde, Yeats, joyce, Lorca, Sartre...todos estes me fizeram pensar e sentir. Hesse, por sua vez, me ajudou a sentir e a pensar em sociedade mas sem me distanciar do meu EU. Sendo sempre o Pária que sou, mas que mesmo assim ainda teima em buscar essa tal felicidade. Ou buscar o meu eu. Que nunca deixará de ser o OUTRO.

E pensando nisso, hoje deixo aqui um trecho de outro livro de Hesse igualmente brilhante. E que todo Outsider deveria ler. O Lobo da Estepe.


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"Você muitas vezes desejou abandonar este tempo, este mundo, esta realidade e entrar em outra realidade mais adequada para você, num mundo sem tempo. Faça-o, querido amigo, eu o convido a isso. Você já sabe onde se oculta esse outro mundo, já sabe que esse outro mundo que você busca é sua própria alma. Somente em seu próprio íntimo vive aquela outra realidade que você deseja. Não posso dar-lhe nada que já não exista em você mesmo, não posso desvendar-lhe outro mundo de imagens senão o de sua própria alma. Não posso dar-lhe nada senão a oportunidade, o impulso, a chave, eu o ajudarei a tornar visível seu próprio mundo, isso é tudo"



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Ter 17 anos pode ser algo muito estranho. Mas Hesse me salvou naquele momento. Assim como Hesse me salvou neste ano de transformação.

17 Anos - Julho de 2004.

Erick Carvalho [userpic]

Do Surrealismo Bucólico.

November 8th, 2009 (06:27 pm)
Música: Mercedes Sosa - Balderrama (CHE Soundtrack)

"Já logo será tempo, marcha para as grandes honras,
Cara prole dos deuses, grande filho, tu, de Júpiter!
Vê como estão de acordo o mundo de pesada abóboda
E as terras todas, e a extensão do mar, e o céu profundo!
Vê como, com os séculos por vir, tudo se alegra.
A última parte desta vida seja-me tão longa,
Que para te dizer os feitos não me falte o alento!
O trácio Orfeu não poderá vencer-me nestes cantos,
Nem Lino, ainda que a Orfeu a mãe Calíope socorra
E por seu turno a Lino dê assistência o belo Apolo.
Se competir comigo o próprio Pã, por juiz a Arcádia,
Dar-se-á por vencido o próprio Pã, por juiz a Arcádia."

-Virgílio, Bucólicas.

 

 

 

O que para qualquer um apaixonado pelos cantos surreais da realidade perceptiva atrai mais que a própria abstração de suas tonalidades coloridas? Ouso dizer que o espírito bucólico que acomete todo aquele que deseja libertar o coração e a alma dos pesos mais ternos.

Este é um post breve. Um post feito apenas para relatar que as matizes surreais de meu peito caminham sob a melodia surreal da bucólica flauta de meus dias no campo.

Meus planos futuros têm caminhos diversos. Em verdade, tracei rotas, gastos, fiz contas e planejo para os próximos meses caminhos bem distantes desta terra. Alguns perigosos e outros apenas apaixonantes. 

Todos deveriam buscar o espírito bucólico que o surrealismo simples pode nos dar.

Em verdade, procuro o espírito da Éclogas de Virgílio em meu pensamento e coração. Mas quem, gauche na vida, não procura?

 Escapar das sirenes e do circo em chamas! Ah eu digo, eu bem digo. Meu empenho é este. Não quero a banalidade dos dias repletos de pesar e daqueles que procuram a liberdade e nada mais. Quero apenas encontrar a poesia diária que consome e voar por prados nunca antes imaginados, apesar de materialmente vistos por quem tiver olhos e disposição para caminhar com botas largas por várias sendas através. É o glamour feérico do sonhar. Do desconhecido. Desbravai! Este é o meu lema.

Corre, corre ribeirinho
Se aninhe em meu peito, ave brejeira
Se nada mais me toma o espírito
Seguirei Viagem forte e certeira
Amarrado à flecha de Quíron
Que me toma sempre a dianteira.

 

Nada podem as bombas  quando sobra meu coração gitano e meu canto de bardo. A flauta dos meus poemas diários e a busca incessante pelo surrealismo bucólico. "Vem humana criança ao folguedo! Pelas águas e pelo arvoredo! Uma fada te traz pela mão, pois no mundo existe tristeza demais para tua compreensão!" Eu canto. Tu cantas. Então não pense em solitude. Pense no sonhar. Deixe o vento te levar. Antes quando criança tinha medo do vento carregar-me  para terras distantes. Depois vi que isso era o importante e meu medo passou a ser ficar trancafiado em um armário por décadas e não conseguir nunca sair por terra e ver o que tanto desejei. Por vezes fazia trouxa. Por dias fiz planos concretos. Hoje, homem feito eu vejo o que tanto quero. Sinto o que preciso. De minhas botas e nada mais.

 Deixe-me voar pequeno passaro brejeiro! Deixe-me! Além de Passargada e muito além de Tir na n’Óg! Quero voar como naquela pintura russa que nos encara apotropaicamente e nos chama para viver todas as aventuras que a vida nos propõe. Minha semiótica é onírica e surrealista.

Hoje sou Ícaro vestido de verde folha.
Apenas aguardem notícias dos mais diversos locais do mundo visível e invisível.É tudo o que prometo aos conformados.


Sigam-me os que não desistiram.



Erick Carvalho [userpic]

Um verso de Saudade.

November 6th, 2009 (12:23 am)
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Música: Violeta Parra - Son tus ojos



Saudade


Quero um sorriso largo
amarelado pelo café
com aroma de conversas
que contemple o vazio de minh'alma
e sorria em desdém.

Quero um abraço fraterno
de amigo muito esquecido
que me retorna contente
desejando nada mais
que as conversas ausentes
do meu copo já vazio de café.

Te quero e te quero muito.
Quero tuas notícias quentes
quero saber da felicidade
e dos dias futuros
quando não duros
da tua presente ausência.


- 06/11/2009

Erick Carvalho [userpic]

Nota mental: Eu sou um Raio.

November 4th, 2009 (11:10 pm)
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Música: Mercedes Sosa - Yo Vengo A Ofrecer Mi Corazon

Hoje sentado em uma das cadeiras de minha faculdade e olhando a noite quente que chegava e deitava-se sobre a Baía de Guanabara tive um pensamento inusitado sobre minha vida e sobre meus atos nos últimos dias, semanas, meses e anos.

 

Olhando para aquele céu de cores estranhas, tão estranhas quanto meus pensamentos. Um raio cortou os céus do Gragoatá e segundos depois um estrondoso som invadiu a sala em que eu tentava em vão assistir uma aula.

 

Foi-se o tempo das gragoatardes é verdade e eu estou de saída. Tenho planos e os colocarei em prática. Rápido como um relâmpago. Forte como um raio. E com estrondoso barulho futuro. Ser denso assim é para poucos.

 

Nesta noite de estrelas distantes e coração quente eu sou um Raio. Nestes termos. Um clarão fugaz que guarda o estrondoso barulho de meus sonhos que estão por vir. Que anuncia a chuva que a tudo lava e que aterroriza aqueles que preferem a calmaria dos céus primaveris. Definitivamente eu sou um raio. Nunca saberei onde cairei, mas prometo ser visceral, arrebatador e saber exatamente o que sou. Um raio que rasga os céus.

 

Taranis me guarde.

Erick Carvalho [userpic]

Judeu ou não Judeu. Pode ser que o Semita Minta?

November 2nd, 2009 (07:21 pm)
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Música: Hava Nagila

 

 

“Sou apátrida por três razões:
como nativo da Boêmia na Áustria,
como austríaco na Alemanha
e como judeu no mundo inteiro.
Sou um intruso em toda parte!”
– Gustav Mahler

 

O grande compositor austríaco Gustav Mahler tinha consciência de que o fato de ser judeu o atrapalhava e muito em sua carreira enquanto maestro e, sobretudo, compositor. Ser um judeu na Europa no final do século XIX e início do XX era ser cerceado socialmente em vários lugares. E veja bem, estamos falando de um período histórico anterior a Auschwitz ou Nuremberg.

O antissemitismo europeu sempre foi algo velado. Os judeus estavam lá em suas comunidades fechadas e praticamente não faziam parte das atividades nacionais que pertenciam geográfica e juridicamente.  E por serem tão velados em suas atividades que acabaram por alimentar monstros em alcovas nacionalistas.

Hannah Arendt em sua busca pelas possíveis causas basilares do fenômeno dos movimentos totalitários na Europa chega à conclusão de que a figura semita no território europeu contribuiu em muito para a erupção nacionalista destes grupos, principalmente por conta da distinção cultural existente nestas comunidades.

Bem verdade que falar abertamente disso é tocar em feridas que as comunidades judaicas européias não querem nem de longe lembrar. Em verdade, é polêmica garantida. Afinal, como falar da parcela de culpa histórica e social das comunidades judaicas naquilo que veio a se voltar contra as mesmas e as transformaram nas grandes vítimas da segunda grande guerra? Deveras complicado, devo dizer. No entanto, é necessário enfiarmos o dedo nas feridas da história humana. Quanto mais sangue e sujeira de lá sair, melhor.

Vamos citar o conhecido caso Dreyfus.  A grande motivação para escrever este post foi o caso Dreyfus na verdade.  Assisti tem alguns dias o filme “Bastardos Inglórios” onde o diretor faz uma inversão de valores acerca da figura do Judeu no bojo da segunda guerra. O filme todo não é de meu agrado, principalmente por não gostar particularmente da estética cinematográfica de Tarantino. No entanto, em uma de suas primeiras cenas um nome de uma família camponesa judia guardada ( e massacrada posteriormente) em um sótão me vem em mente. Seu nome era Dreyfus.

O caso Dreyfus é justamente o fato histórico emblemático que marca essa idéia antissemita em solo europeu. A erupção de algo que existia de forma latente e que ninguém se dava conta. A idéia de que o modus vivendi judaico não era apreciado em nenhum lugar da Europa, até mesmo  na tão igualitária, fraternal e liberal França!Alfred Dreyfus

Em 1894 o soldado de origem Judaica Alfred Dreyfus é acusado de ser um espião a serviço dos alemães. Os documentos, no entanto, eram falsos. Mesmo assim Dreyfus foi condenado por alta traição e extraditado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Sinceramente, eu ficaria por lá.

A opinião francesa se dividiu abertamente entre os que eram a favor e contra Dreyfus. O ódio antissemita era evidente. O desenrolar do processo durou 16 anos. Nesse ínterim, Dreyfus ficou marcado como baluarte do ódio a figura semita no país. Afinal, mesmo depois de absolvido e dado como inocente, Dreyfus era hostilizado pelos demais franceses. E estamos falando de décadas antes da ascensão do nazismo e das Leis de Nuremberg (1935).

O estado de guerra civil ideológica era claro. Arrisco-me dizer que nos salões da Belle Époque dançava-se sob um chão de vidro onde ao se olhar para baixo poderia se observar toda a hipocrisia e sujeira social onde uma sociedade inteira se alicerçava. Precisou a figura de Émile Zola se sobressair como intelectual e ativista ( o primeiro da espécie, demos graças!) para opinarem sobre o assunto de forma coerente. E mesmo assim, incomodados como estavam, o antissemitismo prevaleceu.

No entanto, as Leis de Nuremberg , anos mais tarde, vieram  corroborar com uma posição antissemita naturalizada pela sociedade européia. Inclusive para as comunidades judaicas, o que é desconcertante para as mesmas admitirem. Principalmente após a desgraça de Auschwitz.

As leis de Nuremberg não abalaram a comunidade Judaica. Os judeus ricos que moravam então nas cidades resolveram esperar. E o Nazismo cresceu. Tem alguns meses que assisti a uma releitura  de “Um Homem Bom” para o cinema. Lembro-me de debater sobre este filme logo após sair do cinema e chegar a conclusão com minha interlocutora de que é de um hipocrisia sem medida simplesmente esperar as coisas acontecerem.  E foi justamente o que aconteceu. Enquanto pobres, sem dinheiro ou emprego eram atacados e enviados para campos de concentração não havia problema. Agora quando essas ações chegam até as classes mais abastadas...ai a opinião pública faz frente. A comunidade judaica com maiores recursos não se manifestou. Viu o nazismo ascender de camarote e pagou para ver. Uma lástima.

O antissemitismo não pode ser negado. Principalmente na história européia onde ele existe desde a idade média e passou a ser um preconceito caseiro que acabou resultando nas mazelas assistidas na segunda grande guerra. No entanto, a noção de etnia surgiu com os próprios judeus que tentavam a todo custo se distanciar das comunidades que faziam parte, tendo até mesmo outra língua, outros costumes e regras próprias de comportamento. A combinação destas duas vertentes com uma europa pós primeira guerra sedenta por achar um culpado resultou em uma das maiores vergonhas para a humanidade e que até hoje dá frutos podres.

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